Esse tal Papai Noel*

O ritual termina no dia 25 de dezembro. Depois das entregas matinais, ele chega em casa decidido a romper com o personagem que interpreta no mês de dezembro. Vai ao banheiro, toma banho. Em seguida, corta os cabelos e a barba longa descolorida. E volta a ser Vitório Smaniotto Neto.

No final do ano, Vitório, 38 anos, assume a posição de Papai Noel em um dos shoppings de Balneário Camboriú. E ninguém aposta que ele tem menos que 50 anos, devido à indumentária bem elaborada de bom velhinho. Há quatro anos ele está lá sentado no trono rubro, soberano. Há dezessete, cumpre este papel no comércio da cidade. “No começo foi meio que brincadeira, e eu tinha vergonha. Com os anos foi ficando mais fácil.”

“Uns anos mais tarde que eu já era Papai Noel, comecei a notar que os enfeites natalinos sempre traziam um Noel instrumentista”. Resultado: Vitório comprou um acordeon, aprendeu a tocar Jingle Bells e outras tantas canções típicas da época. A música parece animar as crianças e os visitantes do shopping. Os lojistas, ou não percebem mais, ou têm pesadelos à noite com a música que ecoa nas suas cabeças.

Sempre que aparece alguém disposto a conversar com ele, Vitório recorre ao saco vermelho que fica ao seu lado e enche suas mãos de balas e pirulitos. As crianças adoram. Com toda a paciência que a profissão exige, Noel tira fotos, conversa, faz as perguntas clássicas: Você foi um bom menino? O que você quer ganhar do Papai Noel? Tem boa memória, lembra dos nomes das crianças, que são inúmeras. E dá suas voltas pelo shopping com seu acordeon nas mãos.

Este ano, além do acordeon, contratou um “duende oficial”Oromar Miranda de Rodrigues (Anão),  “420 anos”, diverte-se e forma uma dupla e tanto com Vitório. Os outros Noéis da cidade são menos experientes no ramo. Foi Vitório quem deu algumas dicas para um deles e, solidário, arrumou emprego para outro. “É uma troca de informações na verdade. Aqui não existem cursos que formem um Papai Noel. Só em Gramado.”

Vitório também é um “Papai Noel particular”. Participa das festas de final de ano de empresas, hospitais, igrejas e de algumas famílias também, que contratam seus serviços para a noite do dia 24. Não se sabe quantos reais entram no bolso de Noel/Vitório nessa época do ano, mas ele garante que é uma boa ajuda ao seu negócio de aluguel de brinquedos para festas infantis, que toca junto com a esposa durante o restante dos meses.

Quando Vitório chega a casa na véspera de Natal, seus três filhos ainda estão acordados, à espera dos seus presentes. Depois ele conta que até pouco tempo atrás a filha do meio, Nicole, acreditava que ele realmente era o Papai Noel. E que ele apenas se disfarça de gente comum durante o resto do ano para fiscalizar se as crianças estão sendo obedientes e estudiosas.

Ao cortar os cabelos e a barba na tarde do dia 25, Vitório deixa para trás aquele espírito que o alimenta de alegria durante um mês inteiro. Mas é por pouco tempo. A preparação para ser Papai Noel no próximo ano começa ali mesmo. “Eu vou ficando cabeludo e barbudo de novo, aí em novembro, eu começo a pintar para que fique tudo branquinho. E assim é há tanto tempo, que quem me vê na rua sem barba até se assusta”.

*matéria publicada na edição de dezembro do Jornal Sênior. Esperou mais de um ano para sair, e só “nasceu” porque Larissa Tietjen deu aquela ajuda básica.

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Sobre Larissa Guerra

Jornalista e aprendiz de cozinheira. E-mail para: larissaguerra[@]uol[.]com[.]br
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4 respostas para Esse tal Papai Noel*

  1. Larissa Tietjen disse:

    Gostaria de registrar minha humilde participação na produção desta matéria. Obrigada.

  2. ops, o crédito será devidamente dado né cherriem.

  3. gustavo disse:

    eu já tinha visto um perfil do papai noel no ano passado em algum lugar!!!
    ih esse blog tá vivendo de matérias repetidas, vou parar de frequentar!!!

  4. Andre disse:

    Gustavo,
    “pelamordedeus”! Não nos abandone!
    Seus comentários são, inequivocamente, imprescindíveis enquanto oferecem uma pitada de contraditório ao bom conteúdo ora apresentado!
    ehehehe

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