O livro amarelo do terminal

Inutilmente tentarei aqui escrever um texto melhor do que outros que já li a respeito de “O livro amarelo do Terminal”, da jornalista paulistana Vanessa Barbara. Deveria contar a história do livro primeiro, mas antes de qualquer coisa adianto que do exemplar que tenho, pelo menos outras cinco pessoas leram e gostaram tanto quanto eu gostei. A autora começou o livro lá pelos idos de 2003 e queria escrever algo que falasse a respeito de São Paulo, das suas ruas, das suas pessoas. Encontrou no Terminal Rodoviário do Tietê uma pequena amostra do que a pauliceia desvairada é.

A maior rodoviária da América Latina só não é também a maior do mundo porque Nova Iorque existe. O Terminal do Tietê é mais do que apenas um ponto de embarque e desembarque. É o lugar aonde as pessoas vão atrás de amigos desaparecidos na seção de achados e perdidos. É um lugar onde se comem doze toneladas de pão de queijo e se bebem cem mil cafezinhos em um mês. Sessenta e cinco empresas rodoviárias vendem bilhetes e levam passageiros para mais de mil cidades do país. Passageiros que vem comprar bijuterias na 25 de março para vender em suas lojas; que para ver a família viajam quase 40 horas num feriadão prolongado. Passageiros que chegam e talvez nunca mais voltem à cidade de origem.

As incursões na rodoviária duraram um ano. Às vezes os personagens apareciam, puxavam uma conversa que durava horas. Foram seguranças, carregadores, faxineiros e mocinhas filosóficas do guichê de informações. O livro mistura uma extensa pesquisa documental com observações da autora e as histórias de diversos personagens que encontrou pela rodoviária.

Vanessa construiu uma ode às banalidades da vida na cidade grande. Em abril de 2008, voltou ao Terminal. Muita coisa do que contou em 2003 não estava mais lá. É como diz a sabedoria de parachoque: “Na vida, tudo é passageiro. Menos o motorista e o cobrador.”

O projeto gráfico caprichado da editora Cosac Naify dá uma dose extra de inovação no livro. Conforme alerta o título, o livro é sim amarelo. Folhas que resistem ao tempo. As letras roxas imitam os carimbos e carbonos de bilhetes emitidos.

O texto de Vanessa é irônico, ágil e ainda assim denso. Impossível não sentir uma pontada de melancolia lendo as páginas amareladas. As ótimas descrições e os diálogos entre entrevistador e personagem são valorizados. “O livro amarelo do terminal” é uma raridade. Nem pedindo aos céus com uma vela acesa dentro do guarda-volumes de uma rodoviária você encontra um livro tão bom de ler.

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Sobre Larissa Guerra

Jornalista e aprendiz de cozinheira. E-mail para: larissaguerra[@]uol[.]com[.]br
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5 respostas para O livro amarelo do terminal

  1. Ruca disse:

    Tá, agora eu quero ler tamém! hahaha

  2. gustavo disse:

    Você fala deste livro desde que foi lançado e só agora faz uma coluna sobre ele!?

  3. Andre disse:

    Seu artigo da vontade de continuar lendo… O artigo, o livro, capa, contracapa, orelhas…
    incrivel como alguns(mas) autores(as) tem o poder de prender a atenção dos seus leitores.
    E hoje em dia sao raros os que tem este dom.
    pra quem ainda nao conhece Sao Paulo e seus encantos, posso garantir que qualquer palavra ou frase, ou texto, ou livro, ainda sera pouco para traduzir a grandeza da Pauliceia Desvairada… É o avesso, do avesso, do avesso.

  4. analu disse:

    … concordo com vc André … são poucos os escritores/jornalistas que conseguem escrever de forma que prenda nossa atenção … que faça com que tenhamos aquela vontade de continuar lendo, mesmo vendo que o texto é enorme e estamos com pressa(correria da vida),ainda assim não conseguimos tirar os olhos do papel … e quando acabamos parece que comemos algo delicioso e saimos satisfeitos e pedindo mais numa próxima visita/leitura…parabéns
    Quero ler este livro tbm …. no momento estou lendo “Fotografei voce na minha rolleyflex” (pra descontrair e saber um pouco mais sobre a MPB) ,,,, beijos

  5. gustavo disse:

    atualizar isso aqui para quê?

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