Literalmente

– O que essa porra faz aqui?

Gritei assim com o novo bibliotecário, um garoto branquelo e franzino. Inevitável não perceber logo depois que tinha desrespeitado a convenção universal das Bibliotecas: fazer do silêncio o único som.

O garoto desconversou, inventou alguma coisa que em princípio acreditei. Sumiu da minha vista enquanto cogitava a possibilidade de algum aluno metido a esperto ter resolvido atacar nosso acervo. Não era a primeira vez, mas este tinha deixado lembranças fisiológicas dentro de um volume de capa vermelha escura. Um exemplar daquelas coleções antigas “Grandes clássicos da Humanidade”. Era Anna Karenina.

– Cretino, filho de uma puta.

Desta vez reclamei para os livros.

Minutos mais tarde, volta o moleque já recomposto. Promete que vai ficar atento a qualquer atitude suspeita, diz que é filho de policial e que aprendeu com o pai essas coisas de segurança. Dá pra ver naquelas bolas de gude gigantes que são seus olhos que sente medo de mim. Ou seria medo de ser descoberto? Melhor ficar de olho nele também.

Respiro.

Esse cheirinho de livro, de papel, de ação do tempo, de garrafas de uísque vazias e cinzas de cigarro espalhados por uma escrivaninha. Cheira a mil noites de autores insones, dedicados como formigas inveteradas no seu trabalho de juntar palavra por palavra, capítulo por capítulo até o ponto em que três letras formam na última página o F-I-M da história. E depois do final, o que acontece?

Quando a jovem moça termina aquele que é seu romance preferido, o que ela faz? Quando um erudito dá por encerrado a obra que já releu cinco vezes, apenas para ver se ainda é possível sentir o mesmo prazer da primeira leitura, o que ele pensa?

Hum, esse cheirinho de livro.

Procuro um corredor mais afastado dos curiosos. Respiro. Embriagado pelo cheiro forte típico da literatura, não me preocupo nem em olhar para os lados. Sou o diretor dessa droga aqui, ao menos respeito eu exijo. Com dedos sorrateiros, abro a braguilha. Melhor assim. Não percebo a perplexidade do bibliotecário quando me vê alisando Lolita, Capitu, Emma Bovary. Três adoráveis donzelas. Sinto os corpos muito próximos de mim agora. Enquanto Capitu ri com malícia, uma Lolita vestida apenas com uma calcinha de algodão anda à minha volta. Impossível decifrar o que Emma é.

Suspiro.

Mais tarde acabarei aos berros com o bibliotecário de novo. “Que porra é essa?” Deixo escapar um sorriso. Estou contente comigo mesmo.

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Sobre Larissa Guerra

Jornalista e aprendiz de cozinheira. E-mail para: larissaguerra[@]uol[.]com[.]br
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Uma resposta para Literalmente

  1. Andre disse:

    Caaaaaaaaaalma…
    respira fundo…
    errar é humano…
    perdoar é divino.

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