Clube do filme, ou: filho, você não vai mais para a escola*

Uma pergunta: se seu filho/neto estivesse indo mal no colégio, mostrando total desinteresse pelas aulas, o que você faria? David Gilmour deve ter pensado muito a respeito enquanto seu filho Jesse passava por maus bocados na escola.

Aos 16 anos, o menino tinha verdadeira aversão pelo ensino tradicional. Angustiado com a situação, David fez uma proposta arriscada que mudou a vida dos dois: três vezes por semana pai e filho assistiriam e discutiriam filmes. Longe das aulas de matemática e perto das obras-primas da sétima arte. O pai, que é professor universitário e crítico de cinema seria o avaliador dessa nova proposta e a continuação do “Clube do filme” dependeria apenas do comportamento e da conduta de Jesse. No primeiro deslize, ele voltaria para a escola.

E assim foram as tardes da família Gilmour, às vezes entediantes porque Jesse estava mais concentrado na namorada vietnamita que o “fazia de gato e sapato” do que no filme. O autor é certeiro nas descrições e dilemas de um pai zeloso, que queria evitar o sofrimento do filho a qualquer custo. Jesse, o arquétipo do adolescente urbano, ouvia rap o dia inteiro, tinha pôsteres do cantor Eminem na parede e uma paixão incontrolável pelo filme “Amores Expressos” do cineasta chinês Wong Kar Wai.

O fato de Gilmour ter passado um bom tempo desempregado ajudou no clube. Por mais que ele estivesse preocupado em procurar outro trabalho para não precisar gastar o dinheiro que sua mulher economizou, as fichas que produzia para dar sucintas explicações antes de cada filme ao filho eram verdadeiras preciosidades. Carregadas de impressões, davam um toque especial às técnicas de crítica de cinema. Ali, David não precisava ser um espectador distante, um mero avaliador de filmes. No clube, ele poderia demonstrar toda sua adoração pelo cinema sem medo.

Hoje, com 22 anos. Jesse escreve roteiros para cinema e ganha uns trocados com atuação. Fez uma espécie de supletivo – que Gilmour conta ainda no livro – mais com o objetivo de provar a si mesmo que era capaz de derrotar o “monstro” da escola do que para ter um diploma pendurado na parede.

Clube do filme pode não ser um livro bem escrito, peca por ser repleto de frases melosas dignas de livros de romances açucarados. O que mais vale a pena é a lista de filmes que está no final do volume. É um bom livro para distrair e também para criar polêmica em torno do valor da educação tradicional no século XXI. Não aprovo a ideia de tirar os filhos da escola. Porém, acredito que os pais devem ser os principais responsáveis pela formação cultural de seus filhos; e que talvez esta até valha mais hoje em dia que o teorema de Pitágoras.

Clube do Filme

Autor: David Gilmour

Editora: Intrínseca

* Resenha publicada no Jornal Sênior de setembro/09

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Sobre Larissa Guerra

Jornalista e aprendiz de cozinheira. E-mail para: larissaguerra[@]uol[.]com[.]br
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Uma resposta para Clube do filme, ou: filho, você não vai mais para a escola*

  1. vera prokic disse:

    muito interessante.V

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