Livros bons dividem-se em duas categorias. Na primeira, estão aqueles títulos que lemos, gostamos e ponto final. Na outra, estão aqueles que ficarão marcados para sempre em nossas memórias. Os que deixamos com páginas grifadas, anotações de frases e indicamos com furor infinitas vezes para qualquer desavisado.
Não é fato comum nos depararmos com livros do segundo tipo, e eu acredito que tenho sorte e um bom “faro” para encontrar obras-primas. Dia desses, emprestei de uma amiga “O Segredo de Joe Gould”, do jornalista americano Joseph Mitchell. Em menos de oito horas de leitura, vi que estava diante de algo que ia marcar minha vida dali em diante.
O livro é dividido em duas partes: a primeira é um perfil entitulado “O professor Gaivota” e foi publicada para a revista New Yorker na década de 40. A segunda, já uma reportagem mais extensa saiu em meados da década de 60 com o título “O segredo de Joe Gould” e traz os desdobramentos futuros do personagem.
Joseph, o Mitchell, vivia no bairro do Village, um dos recantos da boêmia nova-iorquina. E um outro Joseph, este de nome Ferdinand Gould, vivia por lá, garimpava guimbas de cigarro no chão, pedia trocados, enchia suas parcas refeições de ketchup e clamava aos quatro cantos que escreve a maior obra da humanidade. Um livro de incontáveis volumes escritos em cadernos de alfabetização, chamado “A história oral de nosso tempo”.
Joe Gould revela-se entre guimbas de cigarros e capítulos imaginados de seu livro um homem ímpar: traduz poesias do inglês para a língua das gaivotas e briga com editores interessados na publicação de seu livro.
Desse personagem tão peculiar, e tão real, Mitchell acaba descobrindo toda a vida. Sabe-se que ele era de uma família aristocrata do interior dos Estados Unidos, e que depois de graduado em Harvard, e de uns empregos por aí, resolveu que não mais trabalharia e viveria de literatura.
A escrita de Joseph Mitchell é fluida, deliciosa de ler. É preciso,porém soberbo. Após a publicação da segunda parte da matéria, nunca mais escreveu. Dá sua opinião em diversas partes da obra, e concordo plenamente em um trecho que ele fala sobre o desperdício de papel que se tem com livros medíocres. Mas este caso não. “O Segredo de Joe Gould” é de uma sensibilidade inimaginável. Só quem lê sabe do que falo.
O Segredo de Joe Gould
Autor: Joseph Mitchell
Editora: Companhia das letras
isso vai para o jornal?
assino embaixo.