You’re so vain…

Prestes a me tornar uma sem-teto, estou sem dinheiro e suando vinte litros por dia com esse calor. As preocupações de final de ano retornam, só que agora com um agravante: eu me formo ano que vem e as melhores perspectivas de futuro consistem em entregar currículos em cozinhas de restaurantes da região. Ninguém disse que seria fácil, mas bem que podia ser um pouco mais divertido, não?

Durante esta semana fiz fotos para meu convite de formatura, mas, ao contrário de muitas vozes que escuto por aí, ainda não bateu aquela nostalgia. Quatro anos de faculdade podem ser muito bem aproveitados em mesas de bar, fugas para a biblioteca e estágios mal remunerados. Não foram quatro anos perdidos, sem os tijolos da Univali eu jamais seria quem eu sou hoje, isso é fato. O fato também é que sou extremamente chata e exigente, e minha maior decepção com a faculdade revelou-se nas aulas incipientes e na sensação de não poder fazer nada para mudar. As mudanças, quando aconteceram, foram apenas nos períodos seguintes, portanto, eu que me ferrei tendo aulas medíocres.  Não foram todas, claro, porque eu gostei de muita coisa que vi, mas pode-se dizer que uma boa parte das milhares de horas passadas na univali foram gastas com devaneios em meio às aulas mais insignificantes possíveis.

Vivo na filosofia do “mais um dia, menos um dia”, ensinamentos de meu colega Renan. Calouros, acreditem, chegará um dia em que a faculdade não será mais que uma lembrança nas suas vidas.

 

Ichwill

Quem me conhece sabe que eu tenho um fraco por moda. Eis que meu sonho de unir trabalho com a vidinha fashion apareceu. Acessem www.ichwill.com.br e confiram a coleção da marca, cheia de fofurices para moçoilas da cidade. Depois, vá até www.ichwill.com.br/blog e confira o meu trabalho.

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O livro amarelo do terminal

Inutilmente tentarei aqui escrever um texto melhor do que outros que já li a respeito de “O livro amarelo do Terminal”, da jornalista paulistana Vanessa Barbara. Deveria contar a história do livro primeiro, mas antes de qualquer coisa adianto que do exemplar que tenho, pelo menos outras cinco pessoas leram e gostaram tanto quanto eu gostei. A autora começou o livro lá pelos idos de 2003 e queria escrever algo que falasse a respeito de São Paulo, das suas ruas, das suas pessoas. Encontrou no Terminal Rodoviário do Tietê uma pequena amostra do que a pauliceia desvairada é.

A maior rodoviária da América Latina só não é também a maior do mundo porque Nova Iorque existe. O Terminal do Tietê é mais do que apenas um ponto de embarque e desembarque. É o lugar aonde as pessoas vão atrás de amigos desaparecidos na seção de achados e perdidos. É um lugar onde se comem doze toneladas de pão de queijo e se bebem cem mil cafezinhos em um mês. Sessenta e cinco empresas rodoviárias vendem bilhetes e levam passageiros para mais de mil cidades do país. Passageiros que vem comprar bijuterias na 25 de março para vender em suas lojas; que para ver a família viajam quase 40 horas num feriadão prolongado. Passageiros que chegam e talvez nunca mais voltem à cidade de origem.

As incursões na rodoviária duraram um ano. Às vezes os personagens apareciam, puxavam uma conversa que durava horas. Foram seguranças, carregadores, faxineiros e mocinhas filosóficas do guichê de informações. O livro mistura uma extensa pesquisa documental com observações da autora e as histórias de diversos personagens que encontrou pela rodoviária.

Vanessa construiu uma ode às banalidades da vida na cidade grande. Em abril de 2008, voltou ao Terminal. Muita coisa do que contou em 2003 não estava mais lá. É como diz a sabedoria de parachoque: “Na vida, tudo é passageiro. Menos o motorista e o cobrador.”

O projeto gráfico caprichado da editora Cosac Naify dá uma dose extra de inovação no livro. Conforme alerta o título, o livro é sim amarelo. Folhas que resistem ao tempo. As letras roxas imitam os carimbos e carbonos de bilhetes emitidos.

O texto de Vanessa é irônico, ágil e ainda assim denso. Impossível não sentir uma pontada de melancolia lendo as páginas amareladas. As ótimas descrições e os diálogos entre entrevistador e personagem são valorizados. “O livro amarelo do terminal” é uma raridade. Nem pedindo aos céus com uma vela acesa dentro do guarda-volumes de uma rodoviária você encontra um livro tão bom de ler.

ausência

Estou viva. Eu acho. Ando muito malemolente com tudo. Sabe como é, aquela história de que jornalismo ás vezes enche o saco né. Parentes que sempre leem o blog, não se assustem com minha ausência. I will be back.

Enquanto isso, tá aí uma música cuti cuti pra começar bem a semana:

the lights go on
the lights go off
when things don’t feel right
I lie down like a tired dog
licking his wounds in the shade

when I feel alive
I try to immagine a careless life
a scenic world where the sunsets are all
breathtaking

Festa para uma dama*

Lídia Baggio em sua festa de 80 anos

Lídia Baggio comemora 80 anos

As filhas organizaram tudo às escondidas. Mirna, Marta, Márcia e Marilu fizeram questão de que o aniversário de 80 anos da mãe fosse uma surpresa. Contaram apenas ao pai, o empresário Lino Baggio, de 85 anos recém-completados. Muito emotivo, deveria ser preparado psicologicamente. Seria uma festa inesquecível.

Enquanto os convites chegavam com fotos que mostravam Dona Lídia Baggio em várias fases da vida, ela, com ar displicente, convidava familiares e amigos próximos para comer pizza, “porque ano que vem eu e Lino comemoramos 60 anos de casados, aí sim será uma festa grande”. Sempre bonita, sorridente e elegante, uma senhora distinta. Mas não conseguia disfarçar uma pontada de decepção com as filhas. Uma pizza para celebrar 80 anos?

80 anos não se comemoram todos os dias, ainda mais quando se trata de uma vida muito bem vivida e repleta de amor. O namoro que começou na adolescência com o militar e alfaiate Lino teve quatro anos de idas e vindas e foi consagrado com um casamento exemplar. Ainda vivendo na pacata cidade de Antônio Prado, Rio Grande do Sul, tiveram a primeira filha, Mirna. Em meados da década de 50, estabeleceram-se em Lages, no planalto catarinense, onde nasceram as três outras filhas. Construíram suas vidas com trabalho na Baggio Magazine, loja de roupa masculina muito prestigiada na cidade.

Se Dona Lídia pudesse ser definida em um adjetivo, não haveria palavra melhor do que “elegância”. Porque ser elegante é mais que estar bem vestida, é um estado de espírito que raras pessoas possuem. Como um dom. Sua disposição é invejável, muitos jovens não possuem a vontade de viver que ela possui. Integrante do Clube da Lady, de senhoras da sociedade lageana, já viveu até seus dias de realeza, quando foi coroada em 2001 Miss Brasil da Terceira Idade.

Como acreditava que apenas sairiam para jantar e com o movimento de pessoas comprando presentes para os pais, Dona Lídia trabalhou até perto das 17h na loja. Sua filha Márcia lembra que a mãe não parou um segundo. “Ela sequer sentou durante todo o dia. Acordou antes das 7 da manhã, foi ao salão de beleza arrumar os cabelos e de lá foi direto para a loja, onde ficou o dia inteirinho.” As flores que chegavam durante o dia esforçavam-se para estar à altura de uma verdadeira dama.

Ao atravessar o salão de festas de braços dados com o marido enquanto cerca de 150 convidados cantavam “Parabéns a você” houve certa nostalgia em Dona Lídia. Quem foi rainha nunca perde a majestade, e com típicos tchauzinhos  de Miss cumprimentava a todos. Segurou a emoção. Em pequenos atos demonstrava o quanto estava feliz em comemorar seu aniversário com pessoas que tanto a estimam. No vídeo que as filhas organizaram, cenas contaram a sua história. Depois de servido o café colonial, muitas de suas amigas do Clube da Lady dançaram, se divertiram. Ela preocupou-se em ser boa anfitriã, parando apenas para tirar fotos que entrarão para o álbum de família. Como as filhas previam, a festa foi definitivamente inesquecível.

* Para não cometer uma injustiça, publico aqui o texto que já deveria ter saído no Sênior. Ossos da profissão. Peço desculpas às pessoas que colaboraram com a matéria, mas infelizmente, não deu.

se eu perder esse trem…

alguma coisa acontece no meu coraçãããããooooo

alguma coisa acontece no meu coraçãããããooooo

Para tudo!

Eu vou pra Sumpaulo.

Cruzarei a Ipiranga com a Av. São João, no maior estilo jeca tatu que nunca foi pra cidade grande. Vou me esbaldar nas livrarias, sebos, museus e o escambau. Vou comer pastel de feira. Não pretendo passar na 25,  mas segura Berenice! se eu topar com algum brechó luxo! Isso tudo se eu conseguir chegar até lá. Desejem-me suerte.


Salvem a cevada!

Na semana passada, uma notícia veiculada no Blog do deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ) provocou comoção entre os fãs da cerveja. Isso mesmo. Segundo a nota, uma pesquisa feita na República Tcheca descobriu que o aquecimento global está causando sério comprometimento na qualidade da cevada, em especial a que é utilizada pela cervejaria Largen Pilsen, sediada naquele país.

Se antes o aquecimento global já preocupava o cidadão consciente de suas ações, o fato de a qualidade da cerveja estar comprometida gera uma dor de cabeça a mais àquele que também é um bom companheiro de bar. Aos entendidos do assunto, fica a preocupação de que além de reclamar com o garçom que traz a bebida quente ou com colarinho de mais, ou (de menos) a cevada pode atrapalhar o seu momento de prazer.

Que me perdoem os alcoólatras que passaram da conta e “só por hoje” andam sóbrios. Mas uma cerveja no bar é fundamental. Ao menos para mim, final de semana sem cerveja com os amigos é algo que não existe. Caso contrário é  semelhante a passar a sexta-feira santa sem carne e acompanhando a missa do Padre Marcelo Rossi. É andar numa Praiana lotada de estudantes com os hormônios aflorados rumo ao Tabuleiro. É a exemplificação do Inferno dantesco.

A editora Larousse lançou no mês passado um livro e tanto. Trata-se do “Larousse da Cerveja”, uma espécie de tratado sobre o que há de melhor – e pior – da bebida. Mas a bibliografia sobre o assunto estende-se até ao filósofo grego Aristóteles. Em seus escritos, ele fala sobre a bebida que era consumida “aos potes pelo povo.” O imperador romano Júlio César era fã da bebida, mas os romanos, em geral, preferiam o vinho.

Aos que acreditam que este texto é besteira, vá a um bom bar numa noite de sábado. O local certamente estará cheio de amigos confraternizando, conversando sobre o dia a dia. O bar é um local sagrado, onde, ao contrário das igrejas, todo mundo é feliz e ninguém morre crucificado. Sem nem ter experimentado um gole sequer.

Congratulo a Lei Seca, que apesar de não muito eficaz (o que é eficaz quando tratamos de leis no Brasil?) nos salva do risco de ser atropelado por um insano na rua. Sim, insano. Quem compromete a vida dos outros estando bêbado só pode ser louco. Não custa nada divertir-se sem causar estragos à integridade humana. Se o táxi lhe parece caro, chame os amigos e vá a pé. A garantia é, de ao menos por aqui, boas risadas e nenhum assalto.

Por fim, deixo a prerrogativa: Se o homem, no auge da sua sapiência, conhece a fermentação alcoólica há mais de 10.000 anos, como é que nós vamos renegar tamanha contribuição à espécie? Então, leitores, levantemos a bandeira: Todos contra o aquecimento global! Pelo bem da cerveja no final de semana.

Jabuti e a boa literatura brasileira

o simpático jabuti

o simpático jabuti

A Câmara Brasileira do Livro divulgou no fim da manhã de hoje os vencedores do 51º Prêmio Jabuti. Aos desinformados, o Jabuti é considerado o maior prêmio da literatura brasileira. Já twittei infinitamente sobre os vencedores, mas deixo aqui o link para quem quiser conferir mais tarde: http://is.gd/3MWQz

Como eu já tinha observado aqui, a Companhia das Letras tinha metade dos indicados para melhor romance. Aconteceu que os três premiados da categoria são da editora. Bons autores no catálogo, capricho no projeto gráfico da obra. O problema é o preço que não cabe nos bolsos de uma universitária latino-americana sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes como a pessoa que vos escreve.

Mas nem era isso que eu gostaria de ressaltar. Queria dizer é que, com a minha “vasta experiência” de escrava de livraria, atesto que só consegui vender, e por minha insistência de vendedor que quer o bem do cliente, o “Cordilheira”, do Daniel Galera. Miltom Hatoum só foi comprado na livraria porque “Dois Irmãos” era obra exigida em algum vestibular, e do Scliar, só se vendia “A mulher que escreveu a Bíblia” porque a gerente praticamente mandava os clientes lerem.

O leitor brasileiro é um bosta. Explico: O leitor médio brasileiro guia-se, como sujeito bem informado que é, pelas revistas Veja/Época/Istoé ou qualquer outra que ostente uma lista de mais vendidos. Porque afinal,  ”se é o mais vendido, é o que há de melhor!” Perdi as contas de quantas vezes sonhei em queimar as listas que tinham de ser atualizadas religiosamente no mural da loja. Desde quando Augusto Cury e seus milhões de exemplares vendidos (devo ter algum problema sério com esse cara) é parâmetro de boa literatura? Qualquer leitor que pense com um pouco mais de sensatez não passa da página 10 de qualquer coisa que ele escreva!

Hoje, passeando pela internet enquanto esperava algum serviço no jornal, acabei lendo a coluna de Luís Antônio Giron,  editor da seção Mente Aberta da ÉPOCA. Um cara que eu imagino que seja esclarecido, aflito por saber por onde anda a boa literatura brasileira?

Claro que há muita porcaria sendo publicada no Brasil. Mas é dever do leitor saber separar o joio do trigo, não? E outra: se há tanta porcaria sendo publicada é porque de certo leitores para comprar a porcaria estão aos montes por aí. É só entrar em qualquer livraria (não só na que trabalhei) para constatar que os leitores procuram livros que não os façam pensar. O leitor brasileiro quer é: autoajuda, romance espírita, chick lit, e raras biografias. Quando Luís resolve voltar-se contra autores que estão se sobressaindo na internet, ele dá um tiro no pé da sua pergunta. Porque, infelizmente, hoje a boa literatura brasileira teve que encontrar refúgio na rede, já que 95% dos leitores resolveram desprezar a estante de literatura nacional. Ou só compraram o livro do Chico Buarque, porque “ah é o Chico Buarque.”

De qualquer forma, se alguma alma iluminada resolver seguir os meus conselhos, “O livro amarelo do terminal” da Vanessa Barbara é um excelente livro (brasileiro) e ganhou o Jabuti de livro-reportagem. E já cansei de falar que vocês têm que ler Daniel Galera. E eles jamais estiveram na lista de mais vendidos.

Literalmente

- O que essa porra faz aqui?

Gritei assim com o novo bibliotecário, um garoto branquelo e franzino. Inevitável não perceber logo depois que tinha desrespeitado a convenção universal das Bibliotecas: fazer do silêncio o único som.

O garoto desconversou, inventou alguma coisa que em princípio acreditei. Sumiu da minha vista enquanto cogitava a possibilidade de algum aluno metido a esperto ter resolvido atacar nosso acervo. Não era a primeira vez, mas este tinha deixado lembranças fisiológicas dentro de um volume de capa vermelha escura. Um exemplar daquelas coleções antigas “Grandes clássicos da Humanidade”. Era Anna Karenina.

- Cretino, filho de uma puta.

Desta vez reclamei para os livros.

Minutos mais tarde, volta o moleque já recomposto. Promete que vai ficar atento a qualquer atitude suspeita, diz que é filho de policial e que aprendeu com o pai essas coisas de segurança. Dá pra ver naquelas bolas de gude gigantes que são seus olhos que sente medo de mim. Ou seria medo de ser descoberto? Melhor ficar de olho nele também.

Respiro.

Esse cheirinho de livro, de papel, de ação do tempo, de garrafas de uísque vazias e cinzas de cigarro espalhados por uma escrivaninha. Cheira a mil noites de autores insones, dedicados como formigas inveteradas no seu trabalho de juntar palavra por palavra, capítulo por capítulo até o ponto em que três letras formam na última página o F-I-M da história. E depois do final, o que acontece?

Quando a jovem moça termina aquele que é seu romance preferido, o que ela faz? Quando um erudito dá por encerrado a obra que já releu cinco vezes, apenas para ver se ainda é possível sentir o mesmo prazer da primeira leitura, o que ele pensa?

Hum, esse cheirinho de livro.

Procuro um corredor mais afastado dos curiosos. Respiro. Embriagado pelo cheiro forte típico da literatura, não me preocupo nem em olhar para os lados. Sou o diretor dessa droga aqui, ao menos respeito eu exijo. Com dedos sorrateiros, abro a braguilha. Melhor assim. Não percebo a perplexidade do bibliotecário quando me vê alisando Lolita, Capitu, Emma Bovary. Três adoráveis donzelas. Sinto os corpos muito próximos de mim agora. Enquanto Capitu ri com malícia, uma Lolita vestida apenas com uma calcinha de algodão anda à minha volta. Impossível decifrar o que Emma é.

Suspiro.

Mais tarde acabarei aos berros com o bibliotecário de novo. “Que porra é essa?” Deixo escapar um sorriso. Estou contente comigo mesmo.

Clube do filme, ou: filho, você não vai mais para a escola*

Uma pergunta: se seu filho/neto estivesse indo mal no colégio, mostrando total desinteresse pelas aulas, o que você faria? David Gilmour deve ter pensado muito a respeito enquanto seu filho Jesse passava por maus bocados na escola.

Aos 16 anos, o menino tinha verdadeira aversão pelo ensino tradicional. Angustiado com a situação, David fez uma proposta arriscada que mudou a vida dos dois: três vezes por semana pai e filho assistiriam e discutiriam filmes. Longe das aulas de matemática e perto das obras-primas da sétima arte. O pai, que é professor universitário e crítico de cinema seria o avaliador dessa nova proposta e a continuação do “Clube do filme” dependeria apenas do comportamento e da conduta de Jesse. No primeiro deslize, ele voltaria para a escola.

E assim foram as tardes da família Gilmour, às vezes entediantes porque Jesse estava mais concentrado na namorada vietnamita que o “fazia de gato e sapato” do que no filme. O autor é certeiro nas descrições e dilemas de um pai zeloso, que queria evitar o sofrimento do filho a qualquer custo. Jesse, o arquétipo do adolescente urbano, ouvia rap o dia inteiro, tinha pôsteres do cantor Eminem na parede e uma paixão incontrolável pelo filme “Amores Expressos” do cineasta chinês Wong Kar Wai.

O fato de Gilmour ter passado um bom tempo desempregado ajudou no clube. Por mais que ele estivesse preocupado em procurar outro trabalho para não precisar gastar o dinheiro que sua mulher economizou, as fichas que produzia para dar sucintas explicações antes de cada filme ao filho eram verdadeiras preciosidades. Carregadas de impressões, davam um toque especial às técnicas de crítica de cinema. Ali, David não precisava ser um espectador distante, um mero avaliador de filmes. No clube, ele poderia demonstrar toda sua adoração pelo cinema sem medo.

Hoje, com 22 anos. Jesse escreve roteiros para cinema e ganha uns trocados com atuação. Fez uma espécie de supletivo – que Gilmour conta ainda no livro – mais com o objetivo de provar a si mesmo que era capaz de derrotar o “monstro” da escola do que para ter um diploma pendurado na parede.

Clube do filme pode não ser um livro bem escrito, peca por ser repleto de frases melosas dignas de livros de romances açucarados. O que mais vale a pena é a lista de filmes que está no final do volume. É um bom livro para distrair e também para criar polêmica em torno do valor da educação tradicional no século XXI. Não aprovo a ideia de tirar os filhos da escola. Porém, acredito que os pais devem ser os principais responsáveis pela formação cultural de seus filhos; e que talvez esta até valha mais hoje em dia que o teorema de Pitágoras.

Clube do Filme

Autor: David Gilmour

Editora: Intrínseca

* Resenha publicada no Jornal Sênior de setembro/09

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